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Vegan Vibes nº2 | Viva! Foie gras fora da mesa: o Brasil acaba de fazer história

Depois de mais de uma década de pressão de entidades como a Animal Equality Brasil, que reuniu mais de 300 mil assinaturas endereçadas à Secretaria-Geral da Presidência, e da articulação legislativa da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), o Brasil sancionou a Lei 15.475/2026. O texto, publicado no Diário Oficial da União em 24 de julho, proíbe ‘a produção e a comercialização de alimentos obtidos por meio da alimentação forçada de animais’, valendo tanto para o produto in natura quanto para o industrializado. Na prática, é o fim do foie gras legal no país. Uma vitória e tanto para a causa animal.

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Pra quem não conhece, os bastidores do prato: o foie gras é o fígado de patos ou gansos submetidos ao gavage, técnica em que um tubo é introduzido na garganta do animal para forçar a ingestão de grandes volumes de comida. O fígado pode crescer até 12 vezes o tamanho normal. Ou seja, uma prática cruel, para não dizer sádica..

A lei prevê 180 dias de prazo de adequação a partir da publicação, então a proibição efetiva só entra em vigor por volta de janeiro de 2027. Quem descumprir, vai responder pela Lei de Crimes Ambientais, com detenção de três meses a um ano mais multa, além de sanções administrativas como apreensão de produtos e embargo de atividades.

É desses casos raros em que dá pra comemorar sem ressalva: vitória concreta, com data marcada, sem depender de boa vontade de marca nenhuma. Dá até um quentinho no coração, mesmo que ele dure pouco, já que o mundo tem produzido notícias péssimas todo santo dia!

O mercado cresce, mas o preço não desce

Os números do setor plant-based no Brasil impressionam. Segundo dados da Euromonitor citados pela veganbusiness.com.br, a projeção é de R$1,1 bilhão, com o volume total do setor crescendo 22% no período.

O problema é que esse crescimento não vem resolvendo o principal obstáculo apontado pelo próprio mercado: a diferença de preço entre o produto plant-based e o convencional continua significativa, e a presença desses itens no varejo popular e no food service ainda é limitada, segundo a mesma fonte. Ou seja, o setor cresce puxado por quem já pode pagar, não por uma democratização real de acesso.

É que o discurso de inclusão não bate com a prática

Essa distância entre discurso e prática aparece também na forma como o veganismo é divulgado. O portal veganagente.com.br argumenta que a comunicação vegana brasileira prioriza pessoas brancas de classe média, com conteúdo culinário centrado em ingredientes caros como quinoa, chia e derivados gourmet de soja, eventos concentrados em bairros centrais (ou mesmo hypados)  e influenciadores que associam o veganismo a consumo e turismo, quase uma ‘aesthetic’. Nos comentários do próprio texto, alguns leitores contestam a generalização e citam restaurantes populares que vendem prato vegano completo por um preço bem mais baixo, como prova de que a alimentação vegetal em si não é o problema.

Aqui eu abro para uma indicação maravilhosa na capital pernambucana: O Vegostices (https://www.instagram.com/vegostices/) fica no centro da cidade, na 7 de Setembro. Comida delícia, farta, empreendimento negro, tocado pela diva Nathalia Salusi.

E aqui eu fecho de cadeado com o que muitos não perceberam: o veganismo enquanto prática alimentar não precisa e nem deve ser caro, mas a forma como ele é vendido, filmado e postado ajuda a construir essa fama.

O hype da vez: ‘proteína limpa’

‘A nível de’, ‘no tocante a’, ‘atravessamento’… Periodicamente uma palavra ou expressão toma conta de tudo que é canto e chega a cansar. A da vez parece ser ‘proteína limpa’.  E esse termo está em toda parte, só que significando coisas diferentes. Veja mesmo o rolo:

Nas tendências de 2026 apontadas pela VegNews, ‘clean protein’ descreve uma virada de comportamento: o consumidor saindo de produtos ultraprocessados em busca de proteína minimamente processada, com destaque para grãos integrais, leguminosas e fibra. O que é ótimo, até porque é mais barato e estimula produção local, etc.

Já a Good Food Institute Brasil (no site deles se definem como “organização sem fins lucrativos que promove a transformação do sistema alimentar atual”) usa ‘proteína limpa’ para outra coisa. Na definição atribuída a Bruce Friedrich, cofundador e presidente da instituição, entram três categorias: alimentos integrais de origem vegetal, carne vegetal industrializada como as da Beyond Meat, Fazenda Futuro e  Impossible Foods, e carne cultivada em laboratório. Pela lógica da GFI, um hambúrguer ultraprocessado da Beyond Meat é tão ‘proteína limpa’ quanto um prato de feijão, porque ‘limpo’ ali se refere à ausência de contaminação típica de confinamento industrial e à pegada de carbono menor, não ao grau de processamento do alimento.

E, como o Brasil não é para os fracos, tem uma terceira camada de confusão: no mercado de suplementos, ‘clean protein’ também é nome comercial, caso da linha Clean Protein da Alquimia da Saúde, um suplemento de proteína vegetal em pó feito com proteína de ervilha isolada, frutas e especiarias.

Resultado: o mesmo rótulo está sendo usado para vender prato de feijão, hambúrguer ultraprocessado e suplemento em pó. Antes de comprar algo só porque a embalagem promete ‘proteína limpa’, vale ler a lista de ingredientes. Quanto menor essa lista, melhor e mais barato.

“Ai, Ana, mas eu vi você comendo produtos da Fazenda Futuro”. E eu disse que não comia? Como sim, também como linguiças e salsichas da Goshen, por exemplo, num churrasco, num final de semana. O que não dá é para basear toda a alimentação nesses produtos que, para mim, estão na mesma categoria de refrigerantes, salgadinhos, chocolates.. O que aqui chamamos de brebote. É pra de vez em quando.

Caldinho é bom demais!

Quem não é de Pernambuco muitas vezes não entende o costume local de tomar caldinho na praia. Para quem acha estranho, só digo uma coisa: prove. Depois a gente conversa! Agora, para veganas e veganos que vão curtir a praia no Recifinho, recomendo forte apaixonadamente: vá na Barraca da Edite e tome os melhores caldinhos veganos em linha reta do mundo mundial. Fica na frente do número 826 da Av. Boa Viagem.  Tem de maxixe, de cebola, de feijão preto e o destaque para os meus favoritos: batata com couve e jerimum com gengibre. Não é bom não, se amostra.

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Atenção: faz um tempinho que fiz esta foto, os preços podem ter mudado! Não vá dar baile no povo se estiverem diferentes!

Quando vou lá sempre tomo uns 3 ou 4 e sempre penso a mesma coisa: se a Edite, uma mulher que vende bebidas e petiscos na praia, sem nenhuma estrela Michelin, parou para pensar no público vegano e consegue oferecer deliciosas e criativas opções, porque tantos chefs renomados e tantos restaurantes insistem em ignorar essa fatia de mercado? Ou, quando muito, metem uma opção preguiçosa como uma moqueca de banana da terra, ou um macarrão com molho de tomate? Não é curioso?

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As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do site Papo PE.

Formada em Jornalismo e Cinema, Ana Quitéria deixou de comer animais há cerca de 20 anos e ainda não parou de ouvir a pergunta: “De onde vem as proteínas?”.


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